22 novembro 2017

izaskun gracia quintana

urte ugari daramatzat bizkarrean itsatsita
infernurako zigorrak pilatzen ditut tximeleten hiltzaile amateurrak bezala
eta nire arimaz alferrik kezkatzen ziren horiek nire izenean egin zituzten otoitzak apurtzen ditut
galdurik nago
erbesteratua
inorena
eta horrela
lehertzen naiz
nire akatsezko izatea haragi azpian ezkutatuz

Carrego anos de pecados nas costas
acumulo condenações ao inferno como fanática assassina de borboletas
e quebro os votos que em meu nome fizeram os que em vão se preocupavam com a minha lama
estou perdida
expatriada
alheia
assim
rebento
escondido sob a carne o meu ser de erros


19 novembro 2017

magda portal

11-

el gran ruido del mar estrellándose en las paredes de
[mi cráneo-
En cuyos frontales golpea la idea
De las más libre libertad
Para extender mis manos afiladas i firmes
A los muros cerrados de la muerte-

alegre capacidad de los sentidos
para desamarrarse de las costas de amor
i salir sobre los mares desconocidos
a los puertos sin nombre

11-

o grande barulho do mar estrepitando-se nas paredes do
[meu crânio-
Em cujos frontais golpeia a ideia
Da mais livre liberdade
Para estender as minhas mãos afiadas e firmes
Às paredes encerradas da morte-

alegre capacidade dos sentidos
para se desembaraçar dos custos do amor
e sair por mares desconhecidos
aos portos sem nome-


14 novembro 2017

flaminia cruciani

He sido parida por un hombre
por el dolor de su oreja
en la alegría de un resto de eternidad
raspado en el fondo del fuego
por manos donde estaba escondido un dios.
Nosotros, es verdad, tenemos la misma sangre magnética
quieres castigarme porque lo parezco
porque de mí solo has acunado las reliquias
porque he nacido póstuma
y te buscas en mí, pero no te encuentras
porque solo soy una mortaja
un rosario de flamas que ruega al cielo.


Fui parida por um homem
pela dor da sua orelha
na alegria de uma cópia de eternidade
rasurada no fundo do fogo
por mãos onde se escondia um deus.
Nós, é verdade, temos o mesmo sangue magnético
queres punir-me pelo que pareço
que de mim só aninhaste as relíquias
que nasci póstuma
e procuras-te em mim mas não te encontras
que apenas sou uma mortalha
um rosário de chamas implorando os céus.



08 novembro 2017

bibiana bernal

Pájaro de piedra

Ser de piedra y creerse pájaro
porque el viento propaga el polvo de las manos.

Verse ave en el reflejo,
aunque inmóvil sobre el asfalto,
abrasado por la luz de las cinco de la tarde.

Saberse nido
en un recodo del día que agoniza,
sin poder roer el aire.

Ser de carne y creerse hoja o pluma
y al final de la jornada ser quien cae.

Ser uno y creerse otro y otro y otro,
hasta anochecer sobre sí mismo
y volver al origen,
donde la arcilla no tenía rostro
y las alas no pesaban tanto.


Pássaro de pedra

Ser de pedra e julgar-se pássaro
porque o vento propaga o pó das mãos.

Ver-se ave no reflexo,
embora imóvel no asfalto,
abrasado pela luz das cinco da tarde.

Saber-se ninho
num recuncho do dia que agoniza,
sem poder roer o ar.

Ser de carne e julgar-se folha ou pena
e no fim do dia ser quem cai.

Ser um e julgar-se outro e outro e outro,
até sobre si anoitecer
e voltar à origem,
onde a argila não tinha rosto
e as asas não pesavam tanto.


03 novembro 2017

estelle fenzy

La forêt en son sommeil se rassemble après toi. Son œil fugitif mord les cimes. Superpose les rayons.
Ce sont de muettes effusions. Dans une lumière en sourdine.
Et tout à coup – la nuit.
La forêt pleine à nouveau. Unie, mousse et rideau. Espace éperdu, écheveau de légendes.
Comme, au fond de soi, l’entière origine du cœur animal. Délesté de ses peurs.

O bosque no seu sono dobra-se depois de ti. O seu olho fugitivo morde os altos. Sobrepõe os raios.
São efusões mudas. Numa luz em surdina.
E de repente – a noite.
O bosque pleno de novo. Unido, musgo e cortina. Espaço intenso, acervo de lendas.

Como, no fundo de si, a inteira origem do coração animal. Despojado dos seus medos.

27 outubro 2017

julieta marchant

CAMINAMOS PENSANDO en el nombre
en su obrar sigiloso
el lento proceder de una palabra.
Lo que heredé de mi madre y lo que ella de la suya heredó:
un nombre endurecido por el tiempo
la etiqueta que la carne tolera.
El rastro que en nosotras se abandona
los cuerpos reposan en su quietud imaginaria
de mi madre me separa un muro
a través de él la escucho quejarse
su desvelo me sostiene.
Huye la imagen y con ella el invierno
–las estaciones cavan la ausencia–
resguardo una escena, circula adentro el trazo que la borra.
Si pudiese escribir sobre un recuerdo cualquiera
que en el trayecto se resistiera a la inmovilidad
la letra un puñado de plumas que sepultadas pretenden.
Esta lejanía atesora un cadáver.
Las manos de mi abuela trenzaron un pasado distinto al de las fotografías
avizoro una cierta cadencia en el reloj oprimiendo su muñeca
el pelo terso, su canosidad embrutecida por el limón
la enagua acaso, los objetos –pensamos–
mientras mi madre clasifica vestidos que nadie volverá a usar.
Lo que alguna vez cubrió un cuerpo ahora lo descubre
inservible y desposeído de sus partes.
Desmantelo la casa
me ovillo entonces
por el contacto con la muerte replegarse hacia la infancia
retroceder
protejo retazos
zurzo
donde la tela cede y oscurece la memoria
aprieto la mano.
Restituir la herencia de un nombre
con otro que recubre el espacio que el primero desdeñó
un origen fraguado apenas
reconocerse tal vez
en el olvido ajeno
las palabras flotan y rajan.
Estrechas salas de estar amontono:
esquinado el patio de hibiscus, mi madre anudando tallos
rudimentarias estrategias para encauzar un árbol aún minúsculo
yo amarro también, por imitación o desgano:
una cierta tendencia al orden
o la fe heredada en los métodos.
Simultáneos nudos poblando el paisaje
caracoles quebrados en el trayecto involuntario de un niño
breves muertes en mi pequeño pie resuenan.
El pulso empuja hacia el interior, redimo lo impreciso
que me habita cuando intento alcanzar
la huella de mi pie
su absurda rebeldía al arquearse hacia adentro
las plantillas que intentaron refrenarlo
(un cuerpo manifiesta su diferencia).
Los zapatos de mi abuela deformados
sus dedos martilleando la gamuza
la gruesa cicatriz vertical que cruza el empeine de mi madre
y quiebra el ángulo de la pierna.
Las diferencias nos hicieron el nombre.
En el patio un árbol atado a otro mayor simula perfección
me sobrepongo un vestido que nadie volverá a usar
ella dobla y clasifica prendas aún tibias
que en cajas preservarán su color.
Lo que una vez cobijó y que ahora la carne despoja.
Enmiendo mi nombre, me reanudo.

CAMINHAMOS PENSANDO no nome
na sua operação sigilosa
o lento processo de uma palavra.
O que herdei da minha mãe e o que ela herdou da sua :
um nome endurecido pelo tempo
a etiqueta que a carne tolera.
O rasto que em nós se abandona
os corpos repousam na sua quietude imaginária
da minha mãe separa-me uma parede
através da qual a oiço queixar-se
o seu desvelo me sustém.
Foge a imagem e com ela o inverno
- as estações cavam a ausência -
Preservo uma cena, circula por dentro o traço que a apaga.
Se pudesse escrever sobre uma recordação qualquer
que no trajeto resistisse à imobilidade
a letra um punhado de penas que sepultadas pretendem.
Esta lonjura aprecia um cadáver.
As mãos da minha avó entrelaçaram um passado diferente das fotografias
entrevejo uma certa cadência no relógio oprimindo o seu pulso
o cabelo macio, o seu grisalho embrutecido pelo limão
a combinação porventura, os objetos – pensamos -
enquanto a minha mãe classifica vestes que ninguém voltará a usar.
Aquilo que certa vez cobriu o corpo, descobre-o agora
inútil e despossuído das suas partes.
Desmantelo a casa
enovelo-me então
pelo contacto com a morte recuar até à infância
retroceder
protejo retalhos
zurzo
onde o tecido cede e obscurece a memória
aperto a mão.
Restituir a herança de um nome
com outro que preenche o espaço que o primeiro desdenhou
uma origem forjada apenas
reconhecer-se talvez
no esquecimento alheio
as palavras descolam e racham.
Estreitas salas de estar amontoado:
dobrado o pátio de hibiscos, a minha mãe amarrando talos
rudimentares estratégias para encaminhar uma árvore ainda min+uscula
eu amarro também, por imitação ou desalento :
uma certa tendência para a ordem
ou a fé herdada nos métodos.
Simultâneos nós povoando a paisagem
caracóis quebrados no trajeto involuntário de uma criança
breves mortes no meu pequeno pé ressoam.
A pulsação empurra para o interior, redimo o impreciso
que me habita quando tento alcançar
a marca do meu pé
a sua absurda rebeldia em arquear-se para dentro
as palmilhas que o tentaram refrear
(um corpo manifesta a sua diferença).
Os sapatos da minha avó deformados
os seus dedos martelando a camurça
a espessa cicatriz vertical que cruza o peito do pé da minha mãe
e quebra o ângulo da perna.
As diferenças fizeram-nos o nome.
No pátio uma árvore atada a outra maior simula perfeição
sobreponho em mim um vestido que ninguém voltará a usar.
ela dobra e classifica peças ainda quentes
que nas caixas preservaram a sua cor.
O que uma vez cobiçou e que agora a carne despoja
Emendo o meu nome, recomeço-me.



18 outubro 2017

aracelis girma


Elegy

What to do with this knowledge
that our living is not guaranteed?

Perhaps one day you touch the young branch
of something beautiful. & it grows & grows
despite your birthdays & the death certificate,
& it one day shades the heads of something beautiful
or makes itself useful to the nest. Walk out
of your house, then, believing in this.
Nothing else matters.

All above us is the touching
of strangers & parrots,
some of them human,
some of them not human.
Listen to me. I am telling you
a true thing. This is the only kingdom.
The kingdom of touching;
the touches of the disappearing, things.


Elegia

Que fazer sabendo
que a nossa vida não está garantida?

Talvez um dia contactes o ramo jovem
de algo belo. E tal cresça e cresça
apesar do teu aniversário e do teu óbito,
e ensombre as cabeças de alguma coisa bela
ou se torne útil ao ninho. Põe-te a andar
da tua casa então, nessa crença,
Nada mais importa.

Acima de tudo e todos está o tato
de estranhos e papagaios,
alguns humanos
alguns não humanos.

Ouve. Digo-te
uma coisa verdadeira. Este é o único reino.
O reino do tato:
o contacto ao evanescente, coisas.


16 outubro 2017

wislawa szymborska

Pokój samobójcy

Myślicie pewnie, że pokój był pusty.
A tam trzy krzesła z mocnym oparciem.
Tam lampa dobra przeciw ciemności.
Biurko, na biurku portfel, gazety.
Budda niefrasobliwy, Jezus frasobliwy.
Siedem słoni na szczęście, a w szufladzie notes.
Myślicie, że tam naszych adresów nie było?

Brakło, myślicie, książek, obrazów i płyt?
A tam pocieszająca trąbka w czarnych rękach.
Saskia z serdecznym kwiatkiem.
Rado iskra bogów.
Odys na półce w życiodajnym śnie
po trudach pieśni piątej.
Moraliści,
nazwiska wypisane złotymi zgłoskami
na pięknie grabowanych grzbietach.
Politycy tuż obok trzymali się prosto.

I nie bez wyjścia, chociażby przez dzrwi,
nie bez widoków, chociażby przez okno,
wydawał sie ten pokój.
Okulary do spoglądania w dal leżały na parapecie.
Brzęczała jedna mucha, czyli żyła jeszcze.

Myślicie, że przynajmniej list wyjaśniał coś.
A jeżeli wam powiem, że listu nie było-
i tylu nas- przyjaciół, a wszyscy się pomieścili
W pustej kopercie opartej o szklankę.

O quarto do suicida

Aposto que julgavam que o quarto estava vazio.
Falso. Estavam três cadeirões de bom encosto
Uma lâmpada eficaz contra a escuridão.
Uma escrivaninha com uma carteira e alguns jornais.
Um Buda relaxado e um Cristo preocupado.
Sete elefantes da boa sorte, um caderno na gaveta
Pensam que não estavam lá os nossos contactos?

Acham que não estavam ali livros, quadros, discos?
Ali havia uma vigorosa trompete em mãos negras.
Saskia com a sua delicada flor.
Alegria, a faísca divina.

Ulisses na estante dormindo um sono reparador
depois dos trabalhos do canto quinto.
Moralistas,
nomes inscritos a letras douradas,
nas lombadas belamente esculpidas.
Ao lado os políticos mantendo-se situacionados.

Sem saída? Mas então a porta?
Sem perspetivas? A janela oferecia outras vistas

Os óculos para ver ao longe estavam sobre o parapeito
Zunia uma mosca, ainda estava viva.

Vocês pensam que pelo menos a carta explicaria qualquer coisa
E se vos dissesse que não havia carta -
e ele tinha tantos amigos, mas todos nós ajustámos na perfeição.
dentro do envelope vazio apoiado na chávena.



04 outubro 2017

paola valverde alier

PRIMERAS CIENCIAS

A Alfonso Chase

Los poetas aprendieron
de un maestro astrónomo

El maestro astrónomo
aprendió la geografía
y las matemáticas
de la mano de un navegante

Cada pluma en la cabeza
de un navegante
representaba
las direcciones de sus viajes

En sus viajes el navegante admiró
la geometría de los nenúfares

Un bárbaro marcó
esas figuras en su brazo

con sellos de barro
se repitieron los símbolos

El astrólogo
adoptó los nombres
que el poeta dio a las constelaciones

y el arte de escribir
vio la luz
en el vasto espacio oceánico


PRIMEIRAS CIÊNCIAS

A Alfonso Chase

Os poetas aprenderam
com um professor astrónomo

O professor astrónomo
aprendeu a geografia
e as matemáticas
pela mão de um marinheiro

Cada célula na cabeça
de um marinheiro
representava
as direções das suas viagens

Nas sua viagens o marinheiro admirou
a geometria dos nenúfares

Um bárbaro inscreveu
essas figuras no seu braço

em marcas de barro
foram repetidos os símbolos

O astrólogo
adotou os nomes
com que o poeta batizou as constelações

e a arte de escrever
viu a luz

no vasto espaço oceânico